Crise no Ueno leva à renúncia do presidente do BC Paraguai

A crise do banco Ueno e seus impactos no Paraguai
Uma grave situação envolvendo o banco digital Ueno provocou mudanças significativas na administração financeira do Paraguai. A crise do banco Ueno, que possui aproximadamente 3 milhões de clientes no país, culminou com a renúncia de Carlos Carvallo, presidente do Banco Central paraguaio, na terça-feira 3 de novembro. O episódio intensificou a pressão sobre o governo do presidente Santiago Peña e questionou a capacidade de supervisão das autoridades regulatórias.
Problemas financeiros e investigações
O Ueno, maior emissor de cartões de crédito no Paraguai, enfrenta dificuldades financeiras graves que dispararam investigações em diversos níveis. Após revisões nos balanços contábeis, o índice de solvência da instituição caiu para menos da metade do limite mínimo estabelecido pelas normas regulatórias. Este indicador, fundamental para medir a capacidade de pagamento de uma instituição financeira, revelou um cenário preocupante.
O Banco Central iniciou procedimentos específicos para salvaguardar os depositantes e evitar efeitos cascata no sistema financeiro. Paralelamente, o Ministério Público solicitou a abertura de investigação criminal, resultando na prisão de oito pessoas vinculadas ao banco.
Investigações anteriores sobre operações questionáveis
Nos últimos meses antecedentes à crise, órgãos reguladores investigavam possível financiamento indireto do Ueno para operações de venda de portfólio de ativos. A empresa em questão mantinha ligações com o Grupo Vázquez, controlador majoritário do banco. A instituição negou sistematicamente a realização dessa operação, mas as suspeitas persistiram entre fiscalizadores.
Impacto no governo e na reputação internacional
O episódio gerou desgaste político significativo para a administração de Peña e ameaçou a imagem do Paraguai como destino atrativo para investimentos estrangeiros emergentes na América do Sul. Grande parcela desse capital provém do Brasil, potencializando a relevância da crise para relações econômicas regionais.
Santiago Peña solicitou pessoalmente a renúncia de Carvallo dentro deste contexto de pressão política e reputacional. O presidente do Banco Central havia dirigido a própria instituição Ueno até agosto de 2023, fato que atraiu críticas parlamentares pela qualidade da supervisão regulatória. Adicionalmente, o presidente paraguaio manteve vínculos com o grupo controlador do Ueno, sendo sócio até março de 2025.
Situação dos depositantes e recursos públicos
O Ueno administra aproximadamente 850 milhões de dólares em recursos públicos no Paraguai. No dia da crise, clientes compareceram às agências do banco e encontraram as dependências fechadas. Entre os afetados estavam aposentados que recebem benefícios governamentais através da instituição.
Manuel Cáceres, morador de Ñemby, nos arredores de Assunção, expressou a frustração vivenciada: "Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no banco Ueno. Infelizmente, muita gente, inclusive eu, está passando a manhã assim." A fala ilustra o impacto humano imediato da crise.
Medidas governamentais de resposta
Em resposta à crise do banco Ueno, Peña anunciou acordo com lideranças do Congresso para acelerar votação de projeto que autoriza utilização do Fundo de Garantia nacional. O objetivo é efetuar pagamentos aos depositantes e recuperar recursos públicos, incluindo valores mantidos pelo instituto de seguridade social IPS e outros fundos previdenciários estatais.
Declarações sobre isolamento do caso
Autoridades do Banco Central do Paraguai afirmaram que a situação do Ueno representa caso isolado, sem indicativos de problemas estruturais mais amplos no sistema financeiro nacional. Peña reforçou essa posição: "Este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional." O presidente enfatizou que responsáveis "devem responder perante o Judiciário, sem exceções e sem privilégios."
Conforme comunicado do BC, a Superintendência de Bancos nomearia auditores para verificar a situação dos ativos do Ueno e avaliar a real dimensão dos problemas identificados.
Trajetória e renúncia do presidente do Banco Central
Carlos Carvallo informou que permaneceria no cargo durante procedimentos adotados pelas autoridades para lidar com a crise. Porém, ao anunciar sua saída, Carvallo declarou que a renúncia ajudaria a reduzir controversas envolvendo o Banco Central, permitindo que a instituição e a Superintendência de Bancos operassem sem disputas políticas e pressões midiáticas.
Parlamentares já haviam solicitado demissão da cúpula do BC após rejeição de relatório sobre o Ueno por considerá-lo incompleto em suas análises e conclusões.
Repercussões nos mercados financeiros
A crise do banco Ueno gerou reflexos diretos nos mercados de capitais. As preocupações com a instituição pressionaram títulos em dólar do banco com vencimento em 2031 e títulos da dívida soberana do Paraguai, afetando a percepção de risco país entre investidores internacionais.
Histórico de crescimento da instituição
O Ueno, controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, experimentou crescimento acelerado de fintech local de nicho para banco de médio porte. Sua trajetória assemelha-se à de plataformas digitais de destaque como Monzo e Nubank, demonstrando capacidade inicial de inovação e expansão de mercado antes da crise.
