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Témiscaming luta para sobreviver às tarifas de Trump

Témiscaming luta para sobreviver às tarifas de Trump
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A cidade que depende de uma única fábrica

As tarifas de Trump colocam em risco a sobrevivência de Témiscaming, uma cidade canadense de mais de um século que foi construída ao redor de sua tradicional usina de papel. Ao atravessar o rio Ottawa em direção ao município, a estrutura industrial ocupa uma posição dominante na paisagem, refletindo sua importância histórica para a região. Desde sua fundação, o moinho tem servido como motor econômico principal, alimentando-se das vastas florestas locais repletas de pinheiros, bétulas, abetos e pinheiros-do-oregon que caracterizam o território.

Hoje, as tarifas comerciais impostas pelo governo americano ameaçam desaparecer com essa realidade que perdurou por gerações. A proprietária americana da unidade, a empresa RYAM, decidiu no início de outubro manter a fábrica em uma paralisação por razões econômicas por tempo indeterminado, afetando diretamente cerca de 360 funcionários que agora enfrentam o desemprego.

O impacto imediato na comunidade local

A paralização da produção não afeta apenas os trabalhadores diretos. O valor dos imóveis em Témiscaming despencou praticamente da noite para o dia, com placas de venda se espalhando pelos jardins das casas modestas que predominam na cidade. Moradores como Ronnie Raymond, cuja família trabalha há gerações na indústria, temem que a cidade se transforme em uma verdadeira ghost town se a fábrica não voltar a operar.

Profissionais de serviços essenciais, desde funcionários de supermercados até médicos dos pequenos hospitais locais, já consideram deixar a região diante da incerteza econômica. Nadine Suley, moradora de longa data, expressa que o fechamento representa muito mais do que perda de emprego: significa o fim de um modo de vida inteiro. Para ela, as tarifas impostas pelos Estados Unidos parecem um ataque pessoal à comunidade que construiu sua existência ao redor da indústria madeireira.

A guerra comercial e seus efeitos em cascata

Em agosto, após o fracasso das negociações comerciais entre Canadá e Estados Unidos, Washington impôs tarifas de até 50% sobre aproximadamente C$ 28 bilhões em produtos canadenses, incluindo madeira, celulose e papel. O Canadá respondeu com retaliações equivalentes, dólar por dólar, em uma disputa comercial que afeta particularmente setores específicos.

A fábrica de Témiscaming produz papelão utilizado em embalagens de alimentos congelados em toda a América do Norte e em bilhetes de loteria instantânea comuns em lojas de conveniência. Aproximadamente 75% de sua produção é destinada ao mercado americano, tornando-a extremamente vulnerável às medidas tarifárias. A crise econômica já provoca efeitos em cascata, afetando serrarias e empresas de transporte rodoviário da região, com empreiteiros já precisando demitir funcionários.

A economia canadense e as disparidades regionais

Embora a taxa de desemprego nacional canadense tenha permanecido relativamente estável em torno de 6,5% desde a implementação das tarifas comerciais, uma análise mais detalhada revela focos de grande dificuldade em setores diretamente afetados. Aço, alumínio, automóveis e produtos florestais experimentam pressões significativas, questionando se o governo Carney faz o suficiente para ajudar regiões em dificuldade.

Stéphane Lefebvre, líder sindical cujo pai e avó também trabalharam na fábrica, destaca que perdas de 10% dos empregos em cidades maiores como Toronto, Montreal ou Vancouver receberiam cobertura mediática massiva e pressionariam governos para ação imediata. No entanto, a crise em Témiscaming não recebe a mesma atenção, sugerindo uma disparidade nas prioridades políticas de apoio.

O exemplo histórico dos anos 1970

A última vez que Témiscaming enfrentou uma ameaça tão grave à sua sobrevivência ocorreu em 1973, quando o então proprietário americano ameaçou fechamento. Naquela ocasião, trabalhadores e gestores locais se uniram para comprar coletivamente a empresa, transformando-a na Tembec, uma companhia internacional de propriedade quebequense com unidades na América do Norte e França.

Frank Dottori, hoje aposentado com mais de 80 anos, foi engenheiro fundamental nessa mobilização. Ele convenceu funcionários a aceitar um corte salarial de 10% e liderou a aquisição coletiva. Apesar de ter sido inicialmente rejeitado pelo então primeiro-ministro de Quebec, Dottori conseguiu viabilizar o plano com ajuda sindical e determinação excepcional.

Agora, trabalhadores esperam repetir esse feito, mobilizando uma coalizão para recomprar a fábrica da RYAM, adquirida em 2017. Porém, Dottori argumenta que isso requer não apenas liderança ousada, mas também ajuda significativa do primeiro-ministro Mark Carney e do governo de Quebec, através de medidas de alívio tarifário ou apoio financeiro direto.

A resposta governamental insuficiente

Sébastien Lemire, deputado do Bloc Québécois por Témiscaming, expressou preocupação com o que considera falta de ação do governo federal para apoiar a cidade e o setor florestal de Quebec. Em resposta, um porta-voz da ministra Mélanie Joly afirmou que o governo disponibilizou C$ 400 milhões para apoiar o setor florestal em áreas rurais e remotas.

Contudo, a resposta parece desproporcional comparada aos investimentos em outros setores. Recentemente, Carney e o primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, anunciaram um pacote de quase C$ 9 bilhões para setores siderúrgico e automobilístico. Enquanto isso, a ministra Joly ameaçou impor sanções à Stelco se demitisse funcionários, demonstrando proteção mais robusta para indústrias de maior visibilidade política.

Esperança nas mudanças políticas futuras

Muitos trabalhadores de Témiscaming depositam esperanças nas próximas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, acreditando que o resultado aumentará pressão sobre Trump para reduzir tarifas ao Canadá. Com seus índices de aprovação em queda segundo pesquisas, o presidente enfrentaria pressão política aumentada.

Recentemente, houve sinais de flexibilização: algumas tarifas sobre produtos canadenses foram suspensas após articulação da senadora republicana Susan Collins do Maine, em sua campanha de reeleição. No entanto, essas mudanças não contemplam os produtos fabricados em Témiscaming, deixando a situação da cidade inalterada.

A corrida contra o tempo e o inverno

Trabalhadores como Suley esperam que uma solução seja encontrada rapidamente, antes da chegada do inverno. Temperaturas abaixo de zero podem congelar equipamentos da fábrica paralisada, provocando danos que tornariam significativamente mais difícil sua reabertura futura. Essa janela temporal reduz ainda mais as opções disponíveis para a comunidade.

Lefebvre mantém determinação em realizar o sonho de fazer a fábrica voltar a pertencer aos moradores, independentemente dos obstáculos. Sua metáfora esportiva reflete a mentalidade da cidade: "Estamos no jogo 7 agora. Vamos jogar até o apito final". Témiscaming continua lutando pela sobrevivência econômica, esperando que lideranças locais, apoio governamental e possíveis mudanças políticas internacionais possam reverter o impacto das tarifas comerciais que ameaçam sua existência como comunidade.

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