EUA: empresas pressuram contra tarifa de 25% sobre produtos brasileiros

Pressão de empresas americanas contra a sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros
A tarifa de 25% sobre produtos brasileiros proposta pelo governo dos Estados Unidos está gerando mobilização intensa entre empresas americanas que dependem de importações do Brasil. Grandes atacadistas, varejistas e indústrias estão pressionando o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) para que retirem produtos brasileiros da lista de sobretaxas, argumentando que o país oferece fornecimento insubstituível em termos de qualidade, escala de produção e preço.
A proposta surgiu após uma investigação do USTR que acusa o governo brasileiro de adotar práticas consideradas como "onerosas ou restritivas" ao comércio bilateral, citando questões relacionadas ao PIX, combate ao desmatamento, pirataria e aplicação de leis anticorrupção. Com base nesse relatório, a administração americana abriu consulta pública para receber manifestações de interessados, com uma audiência marcada para 6 de julho, quando deverá ser tomada a decisão final sobre implementação da medida.
GeoCentral e outras empresas na luta contra a tarifa
A GeoCentral, uma das principais atacadistas americanas de pedras, cristais e fósseis, sediada em Mason, Ohio, encabeça a resistência contra a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A companhia, controlada desde 2008 pela holding familiar CM Paula, solicitou formalmente ao USTR que as pedras semipreciosas brasileiras sejam incluídas na lista de produtos isentos da medida.
Segundo a empresa, mais de 25% de todo seu portfólio é importado do Brasil, especialmente de estados como Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Esses produtos incluem a maior parte das pedras preciosas e semipreciosas comercializadas em diferentes formatos, desde cristais soltos até produtos prontos para o varejo. Em 2025, as exportações brasileiras da categoria de pérolas e pedras preciosas ou semipreciosas totalizaram aproximadamente US$ 45,6 milhões para os Estados Unidos, valor que sobe para US$ 71,8 milhões quando incluídas joias e outros artigos de matérias preciosas.
A GeoCentral não está sozinha nessa luta. Ao menos outras 11 empresas e entidades setoriais enviaram manifestações contestando a proposta de sobretaxa. Dessas, pelo menos nove são companhias americanas que afirmam que a medida aumentará custos, prejudicará operações e reduzirá a competitividade da indústria dos Estados Unidos.
A impossibilidade de substituição: perspectiva das empresas
George White, CEO da CM Paula, afirmou em entrevista que a empresa compra produtos brasileiros por necessidade, não apenas preferência. "Nós não compramos do Brasil simplesmente porque queremos. Compramos porque o país oferece a melhor combinação de qualidade e custo disponível no mundo", explicou o executivo.
De acordo com White, o Brasil possui uma infraestrutura mineradora única, com capacidade para extrair, cortar, polir e preparar pedras para comercialização em larga escala. "Simplesmente não existem alternativas equivalentes em outros lugares", afirmou. Em sua manifestação ao USTR, a CM Paula informou que cerca de 120 produtos comercializados pela GeoCentral seriam afetados pela tarifa, argumentando que não estão disponíveis em fontes alternativas com preços razoáveis, qualidade semelhante ou quantidade suficiente fora do Brasil.
Setores diversos enfrentam impacto
O setor de pisos de madeira também enfrenta pressões similares. Empresas como The Fantastic Floor, sediada em Washington, e Artivo Surfaces solicitaram a exclusão de espécies brasileiras como jatobá e cumaru da tarifa, argumentando que essas madeiras são nativas da América do Sul e não estão disponíveis comercialmente nos EUA. Strong Flooring Solutions, por sua vez, enfatizou que não existem espécies americanas capazes de reproduzir a aparência das madeiras brasileiras.
Wood Timber Import, importadora de produtos de madeira, destacou a importância de molduras e componentes de construção fabricados no Brasil para o mercado imobiliário americano, afirmando que a produção doméstica não consegue atender à demanda em volume e qualidade suficientes.
JKG Inc., distribuidora de placas de granito, mármore e quartzo, alertou que os materiais brasileiros possuem características geológicas únicas. "Adicionar tarifas sobre pedras naturais do Brasil servirá apenas para elevar os custos de construção e aumentar os custos para os consumidores finais", afirmou a empresa em sua manifestação.
Impactos históricos e recuperação de valores
White afirma que a empresa já sofreu impactos relevantes com aumentos tarifários anteriores. As sobretaxas obrigaram a companhia a reduzir despesas, demitir funcionários, diminuir investimentos em marketing e elevar preços no atacado. No Brasil, as sobretaxas impostas pelos EUA chegaram a 50% sobre parte dos produtos exportados em 2025.
Em 20 de novembro de 2025, o presidente Donald Trump assinou decreto que retirou a tarifa adicional de 40% sobre produtos agrícolas e pecuários brasileiros. Posteriormente, após a Suprema Corte americana considerar ilegais parte dessas sobretaxas, o governo americano passou a utilizar outros instrumentos legais, incluindo uma tarifa global de 10% sobre importações.
De acordo com White, a GeoCentral já recuperou cerca de 10% dos valores devidos e espera receber o restante até o fim do ano ou início do próximo. Ao todo, a companhia apresentou 117 pedidos de restituição relacionados a importações do Brasil e China. Mesmo que a tarifa adicional de 25% seja implementada, a GeoCentral afirma que continuará comprando produtos brasileiros, com a única diferença sendo o ônus financeiro maior.
Mobilização setorial e entidades no USTR
Nas manifestações enviadas ao USTR, empresas dos setores de pisos, construção, mineração, educação e habitação sustentam que muitos produtos brasileiros não têm substitutos equivalentes no mercado americano. Elas alertam que a tarifa aumentaria custos para empresas e consumidores dos próprios EUA, sem fortalecer a produção doméstica.
Legacy Roots Housing Initiative (LRHI), organização voltada ao desenvolvimento de moradias modulares, afirmou que a tarifa sobre componentes criaria barreiras para pequenos incorporadores e atrasaria projetos de habitação. Lauria Dental Model, empresa que comercializa modelos odontológicos para universidades e cursos de formação, pediu a exclusão desses produtos, argumentando que são destinados ao ensino e que a sobretaxa apenas elevaria custos da educação.
Entidades setoriais também entraram no debate. A American Seed Trade Association (ASTA), que representa a indústria de sementes dos EUA, pediu participação na audiência pública do USTR, defendendo que sementes para plantio sejam excluídas da tarifa. Segundo a associação, a implementação prejudicaria a competitividade do setor americano e afetaria cadeias globais de suprimento essenciais para inovação agrícola.
Calendário de decisões e perspectivas de negociação
Após o prazo para envio de manifestações por escrito, que se encerra em 1º de julho, e da audiência pública marcada para 6 de julho, o governo dos EUA deverá analisar as contribuições recebidas antes de tomar a decisão final. A expectativa é que o processo seja concluído até 15 de julho, data prevista para eventual implementação das novas tarifas.
Segundo o Itamaraty, o Brasil tem atuado em duas frentes para tentar reverter a proposta: a contestação técnica da investigação conduzida pelo USTR e a negociação diplomática com Washington. O governo brasileiro afirma já ter enviado manifestações formais ao órgão americano e estuda apresentar nova contribuição durante o período de consultas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da cúpula do G7 na França, e o governo brasileiro trabalha com a possibilidade de encontro com o presidente Donald Trump, embora não haja reunião bilateral oficialmente marcada. Nos bastidores, a avaliação é que a proposta de sobretaxa ainda pode ser negociada antes da conclusão do processo.
Amcham Brasil intensifica articulação diplomática
A Amcham Brasil, entidade que representa empresas e relações comerciais entre Brasil e EUA, afirmou que acompanha de perto a investigação e defende uma saída negociada para o impasse. A entidade vem mantendo conversas com autoridades brasileiras e americanas sobre o tema.
Foi realizada reunião em 15 de junho em São Paulo com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e representantes de cerca de 15 empresas, onde foram discutidos possíveis impactos da imposição de tarifas adicionais. A Amcham também participou da consulta pública e audiência promovidas pelo governo dos EUA e prepara nova manifestação ao USTR.
O documento deve destacar os efeitos das sobretaxas sobre cadeias de suprimentos, produção e consumo no mercado americano, além do papel do Brasil como fornecedor estratégico. "Brasil e Estados Unidos possuem uma relação econômica altamente complementar e estratégica", afirmou a Amcham, acrescentando que segue trabalhando para que divergências sejam tratadas por meio do diálogo e cooperação, preservando comércio, investimentos e competitividade das empresas dos dois países.
