Chilena dada por desaparecida na ditadura Pinochet é encontrada viva

Uma história que desafia cinco décadas de silêncio
A chilena desaparecida na ditadura Pinochet, Bernarda Rosalba Vera Contardo, está viva. Após permanecer desaparecida por mais de cinquenta anos, a mulher foi localizada residindo na Argentina, provocando uma reviravolta em um dos casos mais emblemáticos dos direitos humanos no Chile. Aos 80 anos, ela vive discretamente em Miramar, no sul da província de Buenos Aires, longe do olhar público que a havia considerado morta há décadas.
O caso que marcou a ditadura chilena
Em outubro de 1973, pouco após o golpe de Estado que levou Augusto Pinochet ao poder, Bernarda Vera desapareceu. Naquela época, ela tinha apenas 27 anos, era professora de uma escola pública em Puerto Fuy, no Complexo Madeireiro e Florestal Panguipulli, na região de Los Ríos, no sul do país. Militante política ativa, integrava o Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR) e o Movimento Camponês Revolucionário (MCR), usando o pseudônimo "Anita" nas atividades clandestinas.
Bernarda deixou para trás uma filha de apenas cinco anos quando seu paradeiro se perdeu no dia 10 de outubro de 1973, em Liquiñe, na região da pré-cordilheira dos Andes. Seus pais buscaram desesperadamente por notícias, ignorando que ela conseguira escapar dos militares.
O Relatório Rettig e a versão oficial
Quando a Comissão da Verdade e Reconciliação foi formada em 1990, durante o governo do presidente Patricio Aylwin, seus pais prestaram testemunho sobre o desaparecimento. O Relatório Rettig, publicado em 1991, incluiu Bernarda Vera como uma das 1.469 vítimas de desaparecimento forçado no Chile. Segundo o documento oficial, ela havia sido detida por militares em Liquiñe e supostamente executada na ponte de Villarrica, sobre o rio Toltén, junto com outras 15 pessoas.
O relatório afirmava que "acredita-se que ela tenha sido executada na ponte de Villarrica sobre o rio Toltén, ao lado dos outros prisioneiros de Liquiñe. Ela permanece desaparecida desde o momento da sua detenção". Além disso, mencionava que familiares haviam sido informados de uma suposta condenação à morte proferida à revelia em processo relacionado ao ataque à barreira de Neltume.
A fuga para a clandestinidade
Porém, a versão oficial não correspondia à realidade. De acordo com testemunhos de companheiros de militância arquivados no Museu de Neltume, Bernarda Vera conseguiu escapar com um grupo de pessoas que fugiram para as montanhas em outubro de 1973. Um ex-membro do MIR, José Manuel Bravo, registrou que "Anita" estava entre os fugitivos que suportaram os rigores de caminhar pela montanha enquanto militares os perseguiam.
Bravo revelou posteriormente em seu livro "De Carranco a Carrán: las tomas que cambiaron la historia" que permaneceram ao lado de Bernarda Vera na montanha até dezembro de 1973, dois meses após sua suposta detenção. Posteriormente, acredita-se que ela conseguiu escapar clandestinamente do Chile para a Argentina com a ajuda de um membro do MIR, o sueco Svante Grände.
Reconstruindo uma vida na Europa e na América do Sul
Na Argentina, Bernarda Vera se casou novamente e teve um filho. Alguns anos depois, saiu do país com seu marido argentino e o recém-nascido rumo à Suécia. Em 1978, ela recebeu seu primeiro visto e autorização de residência no país nórdico, onde construiu uma vida estável e teve mais dois filhos. Em 1984, obteve a cidadania sueca, consolidando sua identidade em uma nova nação.
No final da década de 1990, retornou à Argentina, estabelecendo-se em Miramar, onde permaneceu desconhecida por seus familiares chilenos até ser encontrada pela emissora Chilevisión em meados do ano anterior.
A confirmação científica através de DNA
O paradeiro de Bernarda Vera foi confirmado através de um relatório pericial de DNA ordenado pelo ministro extraordinário chileno para causas relacionadas aos direitos humanos, Álvaro Mesa Latorre. Os antecedentes científicos, correspondentes ao perfil genético da mulher e às amostras dos seus familiares disponíveis no Banco Genético de Familiares de Prisioneiros e Executados Políticos do Serviço Médico Legal do Chile, determinaram uma probabilidade de identificação superior a 99,9999%.
Segundo fontes do Poder Judiciário chileno, foi solicitado a ela que se submetesse ao teste genético, ao qual concordou. O processo foi realizado por meio de um tribunal de Mar del Plata, na Argentina, em conformidade com os procedimentos internacionais estabelecidos para casos dessa natureza.
O desejo de paz e privacidade
Quando as equipes de reportagem da Chilevisión bateram à porta de Bernarda Vera, ela conseguiu escapar das câmeras. Seu filho Maximiliano, porém, conversou brevemente com os jornalistas fora do microfone. Segundo a repórter Florencia Valenzuela, "ela diz que sempre imaginou que este momento chegaria, que alguém a iria encontrar. Ela não irá renunciar à vida que sempre levou, é uma mulher forte e não tem medo de nada".
Bernarda deixou claro que não deseja falar sobre seu passado e que pretende continuar vivendo em paz, longe dos holofotes da mídia e das questões políticas que cercam seu caso.
O reencontro impossível com a filha
A filha que Bernarda deixou no Chile em 1973 tinha apenas cinco anos. Hoje com 58 anos, ela não quis dar entrevista quando a Chilevisión revelou ter localizado sua mãe, transmitindo incredulidade aos repórteres. "Ela tem certeza de que, se sua mãe estivesse viva, teria entrado em contato com ela", afirmou a jornalista Valenzuela.
A filha havia procurado sua mãe por muito tempo, e as autoridades chilenas agora indagam se a família tinha conhecimento do verdadeiro destino de Bernarda Vera. A mãe de Vera recebeu em vida uma pensão de reparação, assim como sua filha também recebe benefícios por sua condição de incapacidade.
Implicações políticas e investigações
A confirmação de que Bernarda Vera não é uma prisioneira desaparecida abriu espaço para questionamentos políticos. Membros da direita chilena, apoiadores do presidente José Antonio Kast, exigiram investigações para determinar se houve configuração de algum delito ou se fundos foram recebidos de má-fé. O governo atual informou que solicitará investigações sumárias para determinar eventuais responsabilidades administrativas.
A ação judicial sobre o desaparecimento foi aberta em 2009 e temporariamente arquivada em 2014. Em 2025, o Plano Nacional de Busca do governo de Gabriel Boric identificou incongruências no caso e reengatilhou as investigações, levando à descoberta definitiva sobre o paradeiro de Bernarda Vera.
O legado da ditadura chilena
A ditadura chilena de Augusto Pinochet deixou aproximadamente 40 mil vítimas, entre desaparecidos, execuções ilegais, tortura e prisioneiros políticos. O caso de Bernarda Vera Contardo, embora tenha um desfecho diferente da maioria dos documentados no Relatório Rettig, ilustra as complexidades de reconstruir a verdade histórica décadas após os eventos traumáticos. Sua reaparição inesperada representa, simultaneamente, um alívio para aqueles que esperavam notícias suas e um questionamento sobre como autoridades estatais processaram informações contraditórias ao longo de anos sem ação diligente.
