Voo 164: os 146 deportados no dia dos terremotos

A tragédia dos 146 deportados: quando o regresso se tornou numa catástrofe
No dia 24 de junho de 2024, o voo 164 chegou à Venezuela transportando 146 migrantes deportados pelos Estados Unidos. Poucas horas depois, um duplo terremoto devastador atingiu o país, deixando milhares de mortos e desaparecidos. Os passageiros do voo 164 enfrentaram uma das maiores tragédias humanitárias quando, logo após chegarem ao Hotel Santuário La Llanada em La Guaira, o edifício onde realizavam procedimentos administrativos desabou completamente.
A história dos 146 deportados que regressavam à sua pátria naquele fatídico dia revela tanto o alívio inicial de muitos migrantes ao regressarem como o horror indescritível do desastre natural que os aguardava. Estes indivíduos, que haviam emigrado para os Estados Unidos em busca de melhores oportunidades, viam-se agora enfrentando uma situação que ninguém poderia ter previsto.
O programa de deportações e o regresso à Venezuela
Os 146 migrantes do voo 164 foram recebidos no âmbito da Missão Volta à Pátria, um programa governamental venezolano. A aeronave, um Airbus A320 da companhia Global X, transportava 120 homens, 19 mulheres, 5 meninos e 2 meninas. As autoridades encarregadas do programa confirmaram que todos os passageiros chegaram em segurança ao Aeroporto Internacional de Maiquetía, perto de Caracas, e foram posteriormente levados para o hotel para cumprir com procedimentos de segurança, sanitários e administrativos.
Este voo fazia parte da estratégia de deportações em massa implementada pela administração Donald Trump nos Estados Unidos. Muitos destes migrantes haviam escapado do colapso económico venezuelano e da perseguição do governo, arriscando as suas vidas em travessias perigosas para alcançar o território norte-americano. Após serem detidos e processados pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), foram incluídos no programa de repatriação forçada.
Um minuto que salvou uma vida: a história de Orlando Torres
Orlando Torres deve a sua vida a um detalhe aparentemente insignificante: uma chamada telefónica não atendida. Este passageiro do voo 164 foi um dos últimos a sair do avião e chegar ao hotel, pois estava a tentar contactar o seu irmão quando os terremotos ocorreram. O seu irmão não atendeu à chamada, o que causou um atraso de alguns minutos vitais no seu processo administrativo.
Este atraso manteve Torres num edifício anexo ao principal quando o duplo terremoto sacudiu a região. Se a chamada tivesse sido atendida, ele teria terminado o procedimento mais cedo e estaria no edifício principal de quatro andares que desabou completamente, matando a maioria dos seus companheiros de viagem. O edifício em ruínas abrigava a maior parte dos 146 deportados e diversos funcionários do governo venezuelano.
Momentos de alegria antes do desastre
Quando o voo 164 se aproximava do aeroporto venezuelano, a alegria reinava entre os passageiros. Apesar de estarem algemados e presos à cintura, muitos migrantes expressavam a sua felicidade por regressarem à sua pátria. Pedro, um dos sobreviventes, recorda que as pessoas aplaudiam e que havia muita alegria na cabine.
No hotel, os deportados reúnem-se em quartos separados por género e compartilhavam histórias das suas experiências nos Estados Unidos. Falavam dos sonhos que não se tinham realizado, das famílias que queriam reencontrar e das praias quentes da Venezuela. Ninoska Gutiérrez relembra que estavam felizes por terem chegado ao seu país e começavam a contar as suas experiências de detenção nos EUA.
Esta atmosfera de camaradagem e esperança transformou-se num caos absoluto em questão de minutos, quando o solo começou a tremer violentamente.
Os terremotos: destruição e desespero
Os dois terremotos que atingiram a Venezuela no dia 24 de junho deixaram um saldo de aproximadamente 2 mil mortos e dezenas de milhares de feridos e desaparecidos em todo o país. O Hotel Santuário La Llanada, localizado em La Guaira no Estado de Vargas, estava entre as estruturas mais afectadas. O edifício principal onde a maioria dos 146 deportados realizava procedimentos foi completamente destruído, caindo sobre os hóspedes que se encontravam no interior.
Pedro descreveu o momento caótico quando tudo desabou: estava deitado no quarto quando ouviu um estrondo e percebeu que tudo estava a tremer. Correu em direcção às escadas mas algo caiu sobre ele, prendendo-o sob os escombros. Ficou com uma perna estirada, o outro joelho contra o peito e a cabeça contra o chão, com um peso terrível nas costas.
Auto-resgate entre escombros
Um aspecto notável da tragédia foi a solidariedade entre os sobreviventes do voo 164. Quando as autoridades demoraram a chegar, foram os próprios migrantes deportados que se salvaram mutuamente. Pedro relata que ficou preso durante muito tempo até que alguns dos companheiros que conseguiram sair começaram a tentar resgatá-los.
José Navas ficou embaixo dos destroços no terceiro andar do edifício. Junto dele havia outros dez homens vivos e conscientes. Conseguiram, em conjunto, abrir um buraco suficientemente grande para escapar, com a ajuda de outro homem que os socorreu. Navas explica que foram eles próprios que se resgataram, movidos pela vontade de sobreviver.
Ninoska Gutiérrez tinha as pernas presas quando as paredes e o teto desabaram sobre ela. Em estado de choque, lamentava que depois de estar meses presa esperando pelo tão desejado avião da deportação, chegava ao seu país apenas para encontrar uma desgraça. Pouco a pouco, alguém começou a retirar os escombros de cima dela até conseguir mover as pernas e sair pela abertura do teto que havia desabado.
A ausência de ajuda imediata
Nos seus relatos, os sobreviventes reclamam consistentemente da falta de assistência por parte das autoridades. Nenhum funcionário do Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência) foi visto retirando escombros inicialmente. Um testemunha afirma que os agentes estavam em estado de choque e não reagiram imediatamente.
Outros relatos indicam que os agentes do Sebin presentes no local concentraram-se em resgatar os seus próprios companheiros policiais, enquanto ignoravam os migrantes presos nos destroços. A primeira ajuda externa chegou apenas após as 23 horas da noite do dia 24 de junho, cerca de cinco horas depois dos terremotos, quando um pequeno grupo de bombeiros finalmente chegou ao hotel.
Os bombeiros transportaram inicialmente os feridos e mais tarde, perto das três horas da manhã, começaram a ajudar a levantar escombros e retirar pessoas. Segundo os sobreviventes, quando amanheceu no dia 25 de junho, os funcionários do Sebin já haviam fechado o acesso ao hotel, impedindo que familiares procurassem pelos seus entes queridos.
Números incertos e desaparecimentos
As autoridades venezuelanas nunca forneceram um balanço público oficial sobre o que aconteceu aos 146 migrantes do voo 164. Uma contagem informal inicial baseada em testemunhos de sobreviventes sugeriu que apenas 12 pessoas teriam sobrevivido. Contudo, testemunhos posteriores de vítimas e familiares indicam que o número pode ser significativamente maior.
O Departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos ofereceu apenas uma breve declaração, afirmando que o voo 164 chegou com segurança à Venezuela e que todos os estrangeiros ilegais a bordo foram devolvidos ao seu país. Após deixarem a custódia do ICE, o departamento alegou não ser mais responsável pelos passageiros.
A busca desesperada de familiares
Na tarde do terremoto, os familiares dos migrantes deportados começaram a procurar pelos seus entes queridos nas redes sociais, percorrendo hospitais e necrotérios. José Rincón procurava desesperadamente pelo seu neto Abelardo Rincón, de 23 anos, que tinha regressado dos Estados Unidos onde morava há seis anos em Atlanta. Abelardo estava casado e a sua esposa esperava uma filha.
Rincón relata ter reconhecido mais de 200 corpos um a um, tentando encontrar o seu neto, mas sem sucesso. Quando se aproximou do Hotel Santuário La Llanada, foi impedido de passar pelas autoridades. Os funcionários disseram-lhe que "não há vida" no hotel e que o Sebin havia fechado o acesso. Desesperado, perguntava: "Se pudéssemos ver o que queremos ver... mas estou há dias sem conseguir [ver meu neto], nem vivo, nem morto."
Paola Chacón procurava pelo seu primo Darwin Eliécer Serrano López, de 35 anos, que havia regressado à Venezuela após viver quatro anos nos Estados Unidos. Darwin tinha ligado para o seu irmão às 17h32 do dia 24 de junho, confirmando que tinha chegado. Horas depois, ocorreu a tragédia. A família de Chacón dirigiu-se durante toda a noite até La Guaira, pedindo apenas que lhe entregassem o corpo do seu primo para poderem enterrá-lo adequadamente.
Gestos de solidariedade e esperança
Apesar da tragédia, a história dos 146 deportados também está cheia de gestos de solidariedade. Os migrantes que se conheciam há poucas horas foram batizados com apelidos típicos venezuelanos, como "el gocho" (procedente dos Andes), "el llanero" (das planícies) ou "el viejo" (devido à idade). Um deles ficou conhecido como "Superman" por ter supostamente saltado por uma janela durante os terremotos, não apenas se salvando como ajudando a resgatar outros presos nos destroços e até procurando ajuda junto das autoridades em Maiquetía.
Os familiares dos migrantes criaram grupos nas redes sociais com mais de 500 membros, compartilhando informações e pistas para encontrar os seus entes queridos. Começaram a pedir informações na secção de comentários da postagem original da Missão Volta à Pátria onde haviam anunciado a chegada do voo 164. Agora, utilizam esse mesmo espaço para exigir justiça pelas mortes.
Questões sem resposta e luto indefinido
A história dos 146 deportados levanta questões importantes sobre a responsabilidade e a falta de transparência. Muitos familiares questionam por que razão os migrantes foram mantidos no hotel em vez de serem entregues às suas famílias imediatamente após chegarem ao país. Se tivessem sido autorizados a deixar o hotel assim que desembarcaram, muitas vidas poderiam ter sido poupadas.
Uma familiar de um dos migrantes mortos escreveu: "Exijo justiça pela morte de cada um deles. Se o voo chegou de manhã, eles precisavam deixá-los ir com suas famílias. Se tivesse sido assim, nada disso estaria acontecendo. Agora, estamos sofrendo com a morte do nosso familiar, sem vê-lo há três anos, até que o trouxeram aqui para morrer."
O voo 164 e o duplo terremoto de 24 de junho de 2024 deixaram um legado de dor, incerteza e questões sem resposta. Os 146 migrantes deportados, que esperavam começar uma nova etapa nas suas vidas ao regressarem à Venezuela, encontraram-se num cenário de horror e abandono. As suas histórias de sobrevivência, solidariedade e luto continuam a ecoar, lembrando ao mundo os custos humanos das políticas migratórias e das catástrofes naturais que não discriminam entre cidadãos e deportados.
