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Belchior ressurge em LP de 'Elogio da Loucura'

Belchior ressurge em LP de 'Elogio da Loucura'
Fonte: g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/07/04/belchior-e-revivido-com-reedicao-em-lp-de-album-de-1988-em-que-citou-poetas-bob-dylan-freud-e-martin-luther-king.ghtml

A volta de Belchior através do vinil remasterizado

O álbum 'Elogio da Loucura' de Belchior retorna ao mercado em um lançamento que celebra a obra de um dos maiores compositores da música brasileira. Gravado em julho de 1988 sob produção musical de Antonio Foguete e originalmente lançado pela gravadora PolyGram, esse 11º trabalho do artista cearense (1946-2017) agora oferece aos fãs uma oportunidade única de redescobrir uma produção frequentemente ofuscada pela repercussão de seus trabalhos da década de 1970, período mais celebrado de sua carreira.

A reedição em vinil fumê translúcido esfumaçado marca um momento significativo para preservar a memória artística de Belchior, trazendo de volta ao catálogo uma obra que, embora menos explorada pela crítica especializada, carrega as marcas registradas do pensamento musical do compositor. Durante as oito décadas de vida antes de sua morte em 30 de abril de 2017, Belchior consolidou-se como referência incontornável na música popular brasileira, deixando um legado que continua reverberando entre estudiosos e admiradores.

As composições eruditas de 'Elogio da Loucura'

O álbum apresenta dez músicas inteiramente autorais que demonstram a sofisticação literária característica de Belchior. Embora a produção musical envolvida na criação do disco tenha se alinhado com os padrões eletrônicos típicos dos anos 1980, as composições revelam uma sensibilidade poética apurada que transcende as limitações sonoras da época.

Faixas como "Balada de Madame Frigidaire", "Kitsch metropolitanus" (em parceria com Jorge Mello) e "Os profissionais" evidenciam a veia crítica que Belchior nunca abandonou. Seus versos funcionam como verdadeiros laboratórios de referências culturais, transitando entre influências que vão desde o compositor norte-americano Bob Dylan até o ativista Martin Luther King Jr., passando pelos poetas brasileiros como Álvares de Azevedo (1831-1852) e pelo pensador austríaco Freud (1856-1939). Essa multiplicidade de referências revela um artista em constante diálogo com as grandes obras da literatura universal.

As parcerias criativas que estruturam o disco

Francisco Casaverde aparece como parceiro importante na criação do álbum, colaborando em composições fundamentais. A dupla Belchior e Casaverde é responsável por "Lira dos vinte anos", que abre o lado B do LP remasterizado. O título dessa canção não é casual: Belchior tomou emprestado da famosa antologia de 1853 de Álvares de Azevedo, demonstrando sua reverência pela tradição literária nacional.

No lado A do disco, a mesma parceria abre com "Amor de perdição", cujo título estabelece diálogo com a obra homônima publicada em 1862 pelo poeta português Camilo Castelo Branco (1825-1890). Essa prática de Belchior de incorporar títulos literários clássicos nas canções reforça seu posicionamento como compositor intelectualizado, preocupado em estabelecer pontes entre a música popular e a alta literatura.

Graco e outras colaborações memoráveis

O parceiro conterrâneo Graccho Silvio Braz Peixoto da Silva, conhecido artisticamente como Graco, assina quatro das dez composições do álbum. Essa colaboração representa uma das mais frutíferas do disco, resultando em faixas como "Tambor tantã", "No maior jazz", "Recitanda" e "Arte final". A música "Recitanda" apresenta particular relevância ao citar versos de sucessos anteriores de Belchior que marcaram definitivamente a história da música popular brasileira na década de 1970.

A colaboração de Belchior com Jorge Mello também merece destaque. Além de "Kitsch metropolitanus", Mello aparece como coautor de "Arte final" ao lado de Graco, evidenciando a abertura do compositor para trabalhos colaborativos que enriqueciam sua produção musical.

O contexto histórico: entre 'Melodrama' e a consolidação do legado

O álbum 'Elogio da Loucura' foi lançado em 1988, um ano após o disco 'Melodrama', de 1987. Esse período representava uma volta significativa de Belchior à gravadora PolyGram, a mesma que havia viabilizado em 1976 o lançamento de "Alucinação", obra que consolidou definitivamente a posição do cantor e compositor na música brasileira. Curiosamente, o disco "Alucinação" completa 50 anos em 2026, evidenciando a longevidade de sua relevância cultural.

A trajetória de Belchior na década de 1970 permanece como o período áureo de sua carreira, quando suas composições alcançaram uma profundidade e amplitude que transcendiam as barreiras comerciais. Belchior sempre pareceu carregar consigo o peso de sua própria capacidade criativa, como se sua mente brilhante fosse simultaneamente um fardo e uma bênção que impulsionava suas criações mais memoráveis.

Significado da reedição para a posteridade

O lançamento em LP de 'Elogio da Loucura' representa mais do que um simples resgate comercial. Trata-se de um ato de preservação da memória artística, permitindo que novas gerações tenham acesso a uma obra que, embora menos comercial que os trabalhos da década de 1970, carrega as marcas inconfundíveis do pensamento musical de Belchior. A qualidade do vinil remasterizado e a apresentação visual cuidadosa reafirmam o compromisso com a excelência que sempre caracterizou a carreira do compositor cearense.

Belchior conquistou a imortalidade na música brasileira não apenas por seus sucessos comerciais, mas pela solidez de suas composições, pela profundidade de seus textos e pela capacidade de manter-se fiel a seus princípios estéticos. 'Elogio da Loucura' representa um capítulo importante dessa jornada, um testemunho de um artista que jamais deixou de questionar e refletir através de sua música sobre a condição humana e os dilemas da vida moderna.

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